terça-feira, setembro 12, 2006

Porque as relações também falam Elfo

Já passa da 1h da manhã e o João Pestana tarda em convidar-me para lhe fazer companhia. Depois de quase 3 horas a tentar escolher cadeiras como quem escolhe aguentar uma bexiga cheia ou a casa-de-banho do sud express, os meus neurónios pegaram fogo, à semelhança da avó da Martunis... De qualquer forma, descobri este texto e achei-o muito interessante.
Porque não são só os homens que falam Elfo.


"Vá-se lá saber porquê, ouvem-se todos os dias comentários menos simpáticos ao facto de algumas relações, parece que muitas, servirem para nada e não irem a lado algum. Há assim como que um assumido generalizado que as relações se têm para qualquer coisa.
Passada aquela fase da adolescência- em que se gosta porque sim e "está a andar", querendo com isto dizer que seriam deslocadas doutas considerações sobre as motivações profundas dos mais novos para interrogarem com quem podem e querem ter uma relação-, parece que desce uma nuvem de peso e seriedade sobre os vínculos que ligam as pessoas.
Daí que frases do tipo "isto não me leva a nada!"; "essa relação não tem futuro"; "para que é que precisas dele/a?"; "a relação com essa pessoa só te prejudica" sejam lugares-comuns e corriqueiros de uma atitude centrada sobre o valor das relações. Como se, de facto, tivéssemos relações com pessoas como quem tem relógios ou automóveis, devendo estas constituir-se, senão como uma mais-valia, pelo menos como um enfeite interessante.
Há, com certeza, outras meritórias perspectivas. Há até momentos da vida em que uma dada relação, amorosa, de amizade, de parentesco ou mesmo de mero conhecimento, serve para cumprir uma função determinada e, legitimamente, esperada.
Um primeiro namoro serve, entre muitas outras coisas, como forma de afirmação pessoal, como possibilidade de assumpção, para o próprio e para os outros, que se é aceitável, desejável, amável.
O que é curioso é que vida fora a experiência não ensine nem o conhecimento se traduza em atitudes que testemunhem aquilo que todos os adultos de hoje sabem: que as relações não se "têm", antes, arquitectam-se, constroem-se, sofrem-se, aguentam-se, os verbos quase todos, menos o terrível "ter", que conota um posse inexistente e, por arrasto, a distracção fatídica para tantos: a desilusão de não se ter o que se queria e, por consequência, não dar para ir ao almejado lugar das expectativas.
Daí, a conclusão que a "boa" relação ou a relação certa é aquela que nos conduz onde nós queremos, desmentindo, á cabeça, as ideias contemporãneas do que são as relações: construções muito frágeis e muito cuidadas que só duram enquanto são gratificantes, que exigem permanente atenção e que, definitivamente, são para viver.
Não exactamente para ter ou ir a qualquer lado." (Isabel Leal)


Enjoy it =)

*Dauphine*

3 Comments:

Blogger Bolha said...

Sem dúvida, um reflexo da contemporaneidade - em que o ter é mais importante que o ser ou o sentir, em que o mais importante é o comodismo em detrimento da expectativa, do arriscar, da taquicardia, do atirar de cabeça... O velho sentimento de posse, como se alguém fosse dono do outro e o quisesse encerrar numa redoma de vidro... O conforto é considerado bem mais importante e é ao julgar que percebemos alguma coisa do que isso significa que emitimos juízos de valor, como se soubéssemos do que estamos a falar, quando às vezes nem se conhece bem a pessoa...
As relações amorosas e a sua complexidade são um tema inesgotável...

*matuxa*

9:50 da tarde  
Blogger Bolha said...

meu Deusinho... eu confesso q ainda n consigo reflectir sobre nada... neste momento, sou um ser não pensante, daí não andar a comentar posts tão profundos...
prometo q quando estiver sem sofrer a famosa diarreia mental, virei cá fazer comentários mais sentidos. Este foi só para não sentirem a minha falta!

bjinho*camarada timón*

8:03 da tarde  
Blogger Bolha said...

É verdade, quantas vezes não dizemos ou ouvimos os clichés que são dados a titulo de exemplo no texto? Quantas veszes não nos perdemos em angústias e considerações sobre «onde nos leva» determinada relação, numa dada fase da nossa vida, enquanto noutra secalhar sentimos precisar de algo irracional, arrebatado e sem garantias de futuro? Certo é que o tempo passa em tudo a correr hoje em dia e isso tb se reflecte nas relações amorosas: enquanto uns lidam com a efemeridade das coisas recorrendo a relações rápidas, arrebatadas, onde tudo se sente com uma intensidade imensa, mas nada se «tem» de certo, outros optam por relações baseadas no «ter», no futuro estável, na companhia, nas compatibilidades que se prendem com as necessidades práticas do dia a dia. Estes últimos muitas vezes se esquecem de como se sente, enquanto os primeiros acabem frequentemente a queixar-se que vivem muita coisa, mas não sentem nada (ou no caso, ninguém) como seu...
Em suma, penso que está mais do que provado que, cada vez mais com o avançar dos tempos, se torna difícil alcançar o meio termo entre o «ter» e o «sentir», entre o correr e o saborear. E, como o Homem (e em particular a mulher, temos que confessar) é um bicho insatisfeito por natureza, as probabilidades de alguém estar totalmente satisfeito com a relação que tem são cada vez mais diminutas...Devemos contentar-nos com o que «temos» ou correr atrás do que queremos «sentir»? Provavelmente um dos mais antigos dilemas do mundo.

*Sara*

8:07 da tarde  

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